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Uma mulher deve dividir a conta?

  • Foto do escritor: Ana Hilgert
    Ana Hilgert
  • 11 de abr. de 2024
  • 6 min de leitura

Descrição da imagem: uma capa de livro com a frase “Por que a Estátua da Liberdade é Mulher? Porque precisavam de uma cabeça oca para colocar o mirante”


Leia esta crônica até o fim para descobrir (a minha opinião).


Ontem vi uma moça na internet falando sobre dar materialidade a existências. A moça é inteligente. Intelectual. Fala coisas difíceis pra eu entender. Pois então. Fiquei assistindo ela falar tentando entender aquela tal da materialidade.


Descobri que minha interpretação do que ela falou não tinha muito a ver com a realidade da teoria a qual ela se referia. Mas foi o bastante pra eu desenvolver em mim a pergunta: como transformar o imaterial em material?


Quer dizer. Como quantificar uma existência?


Daí lembrei das minhas aulas de responsabilidade civil na faculdade de direito. Lá, aprendíamos a tal da teoria do dano, através da qual quantifica-se o valor correspondente ao dano para gerar uma indenização - ou seja, uma espécie de compensação por prejuízos materiais e imateriais. Os prejuízos materiais são facilmente quantificáveis. Por exemplo.


É fácil quantificar o dano material causado por uma torção no pé. A consulta médica custa 500 reais. A fisioterapia no mínimo 2000 reais. Muitas pessoas parariam por aí. Diriam: o prejuízo foi de 2500 reais. Mas digamos que eu torci o meu pé porque o meu vizinho deixou um buraco na calçada que era responsabilidade dele cuidar. E por causa da torção no pé, fiquei meses com dificuldade de fazer exercícios físicos. Em razão disso, minha estabilidade mental sofreu queda significativa (sim, eu dependo da ioga para viver). Além do mais, tive que diminuir a carga de atividades rotineiras, como a limpeza da casa, e começo a sentir o peso da queda da minha produtividade e autoestima. Bem, se trata de um dano moral. E a ciência jurídica demonstra que este valor também é quantificável - e digno de reparação.



Transformar o Imaterial em Material. Isso é dar materialidade. Uau, sou um gênio.


Olha, vou ter que falar sobre o assunto que eu não queria falar. Eu vou dar a conclusão deste pensamento antes de você chegar no final. Mas a verdade é que estou falando sobre ser mulher.


Qual o real prejuízo de ser mulher e pra quem eu devo enviar a conta? Que minha terapeuta não me leve a mal. Eu fico muito feliz em contribuir com as parcelas de financiamento da sua casa na praia. Mas seria muito melhor investir esse dinheiro num MacBook Pro.


Segue umas continhas que fiz. Não se trata de vitimismo. Pelo contrário! Quantificar me dá poder de gerenciamento sobre os danos. E me ajuda bastante a me posicionar frente aos homens.


Vejamos.


10 anos. Saio na rua. Anos 90. Assobios de homens desconhecidos mais velhos. Estou cercada por pedófilos. Estou cercada por predadores. Meu sistema nervoso se atiça, a rua é uma zona de guerra. Meu corpo é uma zona de guerra.


Escuto falar de Marina, que tem 15 anos e não queria sair de casa, mas foi com as amigas numa festa. Ela é uma criança. Ela morre de medo de ser excluída. De ser chamada de baranga. De estranha. Está no seu sangue adolescente querer se enturmar. Ela bebe como todos os outros. Ela escuta que deve querer sentir desejo por garotos. Desde os 8 anos perguntam se ela tem namorado. Ela se depara com garotos que querem se enturmar. Ela acorda desnorteada no outro dia e durante os próximos 20 anos é atormentada por flashbacks de um estupro coletivo.


Giuliana tem 12 anos, abre o celular e vê a notícia de uma mulher que foi estuprada e morta. Seu tio comenta que “também, estava vestida como uma puta”. E na igreja escuta que é papel das mulheres “não tentar os homens”. Os homens não tem controle. Pensa consigo: “Os homens são animais?” Ela tem raiva. Ela quer chorar. Ela sai da mesa sem licença e quer quebrar os pratos da cozinha. Dizem que não tem controle sobre suas emoções. Sua raiva aumenta. O psicólogo a chama de neurótica e o psiquiatra indica antidepressivos. 10 anos depois ela continua indo na terapia para lidar com o fato de ser problemática.



Viviane, 17, tem uma mente privilegiada. Mas cada vez que ela fala, um homem menos apto fala mais alto que ela. Cada palavra que ela escuta dói no âmago do seu QI superior. Mas ela engole suas respostas por que percebe que as palavras que diz são um desperdício. Ninguém escuta. 10 anos depois ela está num emprego que usa um terço de suas capacidades notáveis. Seu chefe tem uma foto da esposa na mesa mas quando bebe no happy hour, enquanto mexe no grupo de amigos no WhatsApp em que compartilham nudes de mulheres “vadias”, sugere que saiam, apenas os dois, pra jantar, “na amizade.”


Roberta tem um namorado que não gosta que ela saia com as amigas. Ela se afastou dos seus amigos “por amor”. Ele vigia o seu celular. Quando ela descobre que o namorado tem outra namorada, pergunta pra ele o que está acontecendo. Ele diz que ela é louca. Que é coisa de sua cabeça. Anos depois, toda vez que ela sai de casa ela pensa “puts, tenho que voltar, deixei o fogão ligado”. Ela lembra de ter desligado o fogão, mas não sabe se foi verdade ou imaginação.


Maria, 32, conhece um homem. Ele liga pra ela todos os dias. Ele manda mensagem todos os dias. Ele o convida para jantar e quando ela dorme com ele, ele faz café da manhã. Eles tem conversas profundas. Ele insiste que eles não precisam usar camisinha. Ela cede. A partir do dia seguinte, ele fica duas semanas sem aparecer. Um dia ela fica sabendo que ele chamou ela de emocionada no rolê. Mas ela estava preocupada com outra coisa, por que a menstruação estava atrasada. Passava 5 horas por dia pensando no que ia fazer se estivesse grávida enquanto negligenciava o trabalho. Se sentiu como se fosse um território conquistado. Queria ter o poder de ter de volta o que deu, de graça, a um homem.


Sintomas de estresse pós traumático. Transtorno Obsessivo Compulsivo. Depressão. Bipolaridade. Dificuldade em regular as emoções. Manda a conta pro psiquiatra.


Disparidade salarial. Autosabotagem gerada pelo medo constante de ser inadequada. De saber demais. De querer ser mais que um corpo a ser consumido. E que ao ser consumido absorverá a culpa de ter se dado. E que quando não dá, lhe é arrancado.


O resumo é que se minha terapeuta cobra 300 reais a sessão, é porque o meu sofrimento psíquico monetiza. Minhas injustiças são quantificáveis. Façamos as contas, mulheres.


672 mil reais é a conta de 20 anos de terapia, já calculei;


720.000 é a quantidade de dinheiro que uma mulher receberá a menos que um homem por trabalhar 40 anos, caso ela receba 1.500 reais a menos que ele por mês para fazer o mesmo trabalho;


No caso de mulheres que gerenciam lares, se recebessem o valor (mínimo) de 3000 por mês, estariam recebendo por 40 anos de serviço 1.440.000,00;


Com as da Elite, se a disparidade salarial for de 10 mil reais, deixam de ganhar 4.800.000,00 após 40 anos de trabalho;


Somaria a isso 1.000.000 de serviços de assistente pessoal de maridos e filhos, marcando consultas médicas, escolhendo boas escolas, mantendo em dia as atividades extra-curriculares, comprando roupas, descartando roupas, dando apoio emocional, enfim (apesar de tudo não sou mãe e apenas estimo que seja assim);


180.000 reais em cosméticos em 30 anos para não ser chamada de velha e acabada a partir dos 30 mais 90 mil de botox 150 mil de manicure pra não ser chamada de desleixada, depilação,


A conta não tem fim.


E o preço da minha paciência em rir de piadas ruins feitas por homens meio burros por medo de ser chamada de mal-educada não pode ser quantificado.


E o prejuízo é geral.


Em torno 55 mil reais é o valor do dano moral por morte praticado no Brasil. 80.465.000 é este valor multiplicado pelos 1443 casos de feminicídio no ano passado no país;


5 bilhões se considerarmos os 70.000 de estupros “compensados” com danos morais estipulados a 70.000;


E a conta vai pra quem?


Quanto dinheiro ainda escorre para pagar o trauma do - sim, vou usar a palavra - patriarcado, sem chegar perto de minimizar suas injustiças?


Existe uma razão pela qual dizem que fomos feitas para dar sem esperar receber de volta. Amar incondicionalmente. O mito da submissão feminina é apenas uma forma que o homem encontrou de economizar.


Então minhas amadas, da próxima vez que um homem médio sugerir de dividir a conta no restaurante diga a ele que sim, mas que estará descontando da conta em aberto acima. Se ele disser que não tem nada a ver com isso, diga: é muito claro que perdi duas horas da minha vida jantando com você.


Você pode descontar a minha parte do jantar do dano causado por estar diante da sua burrice.


E que todos façam as suas contas.


PS. façam suas contas. divulguem suas contas.


PS2: homens façam suas contas e vejam o quanto de prejuízo e sofrimento vocês poderiam estar evitando pra vocês mesmos.


PS3: não sou estatística e fiz contas por cima baseadas em pesquisas do google para estimular que pessoas mais habilitadas que eu façam melhor essa pesquisa. E recebendo por isso, é claro.


PS4: fico feliz em saber o cálculo dos danos que pessoas como eu causam em outras pessoas.


PS4: eu amo os homens da minha vida. É muito fácil amar os homens quando são dignos e inteligentes. Queremos amá-los. Que fique a dica. Em vez de obrigar mulheres a amar homens esses red pill da vida deveriam focar em se tornarem pessoas amáveis.


 
 
 

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2 comentários


andressabherth
12 de abr. de 2024

Demais Ana! Sou tua fã!

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elisi123
11 de abr. de 2024

Linda e profunda reflexão. 👏🏼👏🏼👏🏼

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