O arroio do Maratá virou rio
- Ana Hilgert
- 1 de mai. de 2024
- 5 min de leitura
A chuva começou anteontem. Estava indo para Porto Alegre com minha mãe, saindo da região de Montenegro. Enquanto ela dirigia, eu lia em voz alta as mensagens dos grupos de WhatsApp que ela não tinha tido tempo para visualizar. Grupo de médicos do HM. Vídeo do prefeito de Montenegro dando o “alerta vermelho” das chuvas. “Esperamos a pior enchente dos últimos anos na região”. Grupo de proprietários rurais da Ecocitrus. Vídeos de ruas alagadas, reuniões desmarcadas até segundo aviso.
Passamos a noite em Porto Alegre, e hoje deveríamos voltar para a região de Montenegro. Revelei minha ansiedade de ter que voltar e uma vez tendo ido de volta para São Paulo, minha mãe continuar fazendo o trajeto Poa - Montenegro e, em Montenegro, o trajeto Maratá - hospital HM, onde minha mãe faz plantões diariamente na ala obstétrica.
“Vou te mostrar que o trajeto não passa pelas áreas alagadas”, disse a minha mãe, para me tranquilizar. Ainda dentro do carro, fomos até o hospital. “Viu”? Ela disse. “Mãe, o que é aquilo ali na frente”?
Na minha frente, onde esperava ver o cinza do asfalto, via uma cor marrom homogênea, como uma alucinação. Onde esperava ver lojas e transeuntes, como num quadro onde o pintor houvesse exagerado na quantidade de tinta, como num emplastro - o rio. Onde antes era a rua Ramiro Barcelos, o rio.
Estávamos a alguns metros de distância e podíamos observar pessoas paradas, pasmas. “Disseram que a última enxurrada tinha sido a pior. Isso foi em setembro. Agora em diante vamos perder tudo o que temos a cada quatro meses”? ouvi uma voz preocupada se manifestar. Em vez de ruas, água. Em vez de bicicletas, barcos. Na frente do corpo de bombeiros, doações empilhadas e um homem saindo com roupas de surf de uma caminhonete. Não havia choro. As pessoas prostradas na frente de suas casas, em espera. As chuvas são esperadas até domingo. O pior ainda está por vir.
Saímos da cidade, da parte alagada pelo rio. Estávamos dirigindo em direção ao sítio, que fica perto do arroio marata. Arroio, não rio. A chegada era esperada pras 13:30. Mas na estrada adiante, outro emplastro marrom. O arroio maratá virou rio. Arroio não, rio.
Minha mãe baixou o vidro, coisa comum de interior, pra perguntar se tinha como passar. Não. “E agora?”. Dois homens: um jovem e um idoso, de moto e carro, debatiam com minha mãe em frente a janela. “Eu sei um caminho”, disse a minha mãe. “Vamos te seguir”, disse o senhor. Vieram atrás de nós, o jovem no seu Fiat, o senhor em sua Harley, enquanto minha mãe, a cada bifurcação, dizia: “não faço ideia se é por aqui”. Por via das dúvidas, seguimos pela intuição. O caminho estava livre, e a chuva batia na janela. Em algum momento, ela disse: “eles tão nos seguindo? Esqueci de esperar”. Mas la vinham eles atrás.
Éramos uma caravana. Desbravávamos a terra de chão cercada por uma vegetação franca, oposto ao que havia sido em janeiro, período de seca. A terra não levantava poeira e parecia ceder nos cantos, onde corriam pequenos riachos recém-formados. Seguíamos, os quatro valentes, desviando de buracos e jorrando água marrom mutuamente pelos pneus nos vidros da frente.
Até que, adiante, mais um emplastro. Minha mãe, o jovem, e o motoqueiro, caminharam até encarar de frente uma pequena corredeira que impedia a passagem dos veículos. O homem da moto decidiu caminhar através da água para ver se encontrava o trilho da ponte. A água corria com velocidade. Mas passavam numa altura ainda distante dos joelhos. Se, no entanto, passassem a correr com mais força, ou se ele perdesse o equilíbrio, poderia ser jogado pra dentro do arroio. Ao meu lado, o barulho do arroio era som de cachoeira. Minha mãe e o jovem do celta aguardavam o idoso enxuto e corajoso da moto atravessar as caudalosas águas do arroio com expectativa.
Enquanto isso, eu observava distante, de dentro do carro, como quando era pequena e era trazida pelos meus pais da cidade para visitar o sítio e preferia ficar escutando meus CDs dentro do carro do que pisar com meus pés na grama de espinhos “rosetas”. Como se recusasse a misturar minha existência com a realidade crua do campo. Como se preferisse esquecer do meu lugar na árvore biológica cravada na terra de lavoura do São José do Maratá. O homem atravessava com coragem a água enquanto eu filmava tudo do meu iPhone 15, como quando em 2019 sentava na mesa para escutar as histórias de antepassados mortos pela influenza espanhola no início do século XX sem poder traçar um mínimo de correlação entre esta e a minha realidade - nem alívio pela distância entre elas sentia, apenas uma aceitação tranquila tingida com uma tímida gratidão por ter nascido em “tempos melhores”.
Nos tempos dos meus bisavós, o pessoal da região profetizava que viria enchente e que o arroio maratá inundaria a várzea, destruindo as plantações. “As famílias se reuniam e rezavam e, especialmente se havia tempestades, eram queimados ramos abençoados da sexta-feira santa”, disse um dia meu tio. Não pude deixar de, ao observar a água da enxurrada, visualiza-la como lágrimas da Terra, lágrimas de luto. A terra, relutante, vaza e destrói o que lhe intoxica, como uma dama que enfrenta um divórcio.
Eu, que via tudo da tela, não senti medo. Estava ocupada demais pensando em registrar tudo e em decidir como escrever a aventura inesperada que vivi numa quarta-feira inusitada de feriado. Será que a Netflix se interessaria por esta quase-tragédia pessoal? Se se negassem, tentaria vender pelo lado da aventura, dos quatro valentes desbravando a estrada de terra, do senhor da moto que tentava atravessar o rio. Se relutassem demais, chegaria a sugerir um romance. “Por favor, compre esta história que escrevi com o meu iPhone que será destroçado em minas de lixo eletrônico em Gana. Compre, antes que seja tarde demais e eu não consiga comprar meu carro e realizar o sonho da casa própria. Compre, antes que meus sonhos se desfaçam”.
E ri de recair sempre no mesmo pessimismo.
E a Terra riu de minha pretensão de segurar nas minhas mãos sujas toda a culpa do desastre.
E eu ri pensando que somos pra Terra como um marido culpado que trai e implora por uma segunda chance.
E a Terra riu dizendo que já arrumou um amante. E que suas lágrimas não são de tristeza. São de gozo. Um gozo inconcebível para nós. Um gozo do qual não compartilhamos. E o arroio virou rio.
Temos chance? Perguntei. Mas não obtive resposta. Apenas o barulho das gotas nas janelas de vidro. E das águas correndo caudalosas. E do profético trovão. E da introdução da série Baby Rena na Smart televisão.


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