Auto-ajuda neurodivergente para escapar da depressão
- Ana Hilgert
- 19 de abr. de 2024
- 4 min de leitura
TDAH é uma desordem numa ordem artificial. Uma ordem de mentira em torno de um conceito de normalidade medíocre. Sim, a normalidade é medíocre. E não digo isso para sermos diferentes disruptivos para destoarmos do comum. Não. Nós já somos anormais. Todos. Animais lutando para permanecer com a cabeça ereta. A gravidade nos faz de todos patéticos. Se for analisar, todo mundo tem uma condição. Como não? Saudável não é sinônimo de normal.
E é assim que penso.
Se você luta para sair da cama, comece na cama mesmo. O que você pode fazer por você? E faça. Se você é incapaz de fazer algo por você, há chances de você estar ouvindo uma voz que não é sua. Às vezes o que você pode fazer por é pesquisar no YouTube um assunto que sempre te trouxe curiosidade, mas que você temia por ser estranho demais. Às vezes o que você pode fazer, por mesmo, é fazer loucuras como se aprofundar nas mais de mil espécies subaquáticas encontradas recentemente na Antártida. Talvez você flerte com teorias da conspiração e até mesmo se aprofunde na teoria da terra plana: seja louco para você, para os outros, para os liberais, para os conservadores, se permita não fazer sentido. O importante é isso. Flertar com a curiosidade infinita sobre a vida. Encontrar aí alguma fagulha de sentido. De vontade. Este é o primeiro passo. Se necessário, comece na cama: pesquise os estudos ocultos da Cia, se aprofunde na estrutura molecular das fezes do macaco, pesquise os mistérios do hermetismo. Seja curioso. Permita esse flerte com a vida, essa gostosa, essa tesuda vida. A nossa miss, a nossa imbatível a nossa maior de todas, a nossa mãe: vida.
E levante da cama não para trabalhar, mas para no trabalho encontrar meia hora de fuga onde você simula uma cagada, mas vai, na verdade, sentar na privada e ver vídeos de amizade entre espécies. Se ver um leopardo adotando um cachorro, se ver um pato se amigar de um gato te faz bem - faça. Se buscar sinais de afeto no mundo te faz bem - se descobrir que a natureza é, também, boa, te faz bem - faça.
Se te sentires bobo por sua inocência, por sua ingenuidade em perseguir o agradável - aquilo que te afasta do horror - não é você mesmo quem fala. É outro. Faça aquilo que te torna inútil. Faça aquilo que te faz pensar: ridículo. Ouse dar o primeiro passo para fazer aquilo que nunca pensaste ser capaz de fazer. Se inscreva num curso gratuito de uma faculdade qualquer. Existem muitos. Faça as primeiras duas aulas. Abandone sem se sentir um merda. Vá para o próximo assunto. Seja voraz. Seja cruel. Não perca tempo com o que não te desperta interesse. Seja impecável com os limites que você impõe aos outros por se beneficiarem do seu tempo. Mas quando dedicar tempo aos outros, seja impecável na sua boa-vontade. E quando voltar para si, continue fazendo por você mesmo. Opte pela ação inevitável. Mas sempre opte a reflexão em vez do impulso vazio. Opte pelo impulso vazio em vez da inação.
Entretenimento puro.
Exemplos:
Hoje me entretive fazendo comentários genuínos em perfis de mulheres sobre os quais meu impulso inicial seria de criticar.
Icônica! Não concordo, mas admiro. Espero ver mais do seu conteúdo. Fênix! Diva! Sim! Continue!
Me entretive amando em vez de odiar. E adorei rir de mim mesma e do meu orgulho de ser tão feminista.
Hoje me entretive pensando na quantidade de energia dispendida pela companhia de energia ao acionar o elevador para subir para o meu andar cada vez que desço até o térreo.
Me entreti pensando em quantas coisas estão ocultas no nosso hábito repetido, como que entrar no elevador significa estar suspenso num cubo preso por cordas e achar isso sempre muito seguro. O elevador é basicamente um portal. Humanos são seres fantásticos - tão engenhosos (e tão burros). Os amo.
Hoje me entretive apreciando os tambores e a melodia de cordas da versão de Santa Clara clareou no álbum bem-vinda amizade. E quando entra o triângulo. Esplêndido. Eu vivo na era de Jorge Ben. E com ele descobri (e me entreti) com a ideia de que os alquimistas são pessoas alegres. Hoje me entreti com a ideia de possuir fones de ouvido e poder curtir minhas obsessões em segredo e de que posso matar minha crítica interior a qualquer instante.
Hoje me entretive com a ideia de que nunca penso em fazer uma faxina completa em casa: começo catando uma caneta do chão e colocando sua tampa de volta na cabeça. Acabo com o serviço completo por que só consigo pensar no próximo passo: consertar o que está fora do lugar. Faxina filosófica.
E me entreti com a ideia de encher a garrafa de água para o meu amor e fazer atos de serviço como este como se ele estivesse aqui. Dobrei suas roupas. Fiz da sua ausência um amigo imaginário. Fiz da tristeza uma cena e ri da densidade da minha saudade.
Verdades: A vida tem sabor. Perder o rumo é um traço evolutivo. Mesmo assim, rotinas são estabilizadoras. A disciplina pode ser excitante. O desejo pode ser entediante.
Conclusão (de hoje): a liberdade está no interesse radical pela vida.

Comentários