Sobre amor e guerra
- Ana Hilgert
- 15 de abr. de 2024
- 3 min de leitura
Cara amiga
Sinto muito te escrever apenas quando algum evento temerário se dá no país onde habitas. Mas cá estamos - eu prefiro saber sempre que você está viva e bem, mesmo que isso seja através de mensagens repetitivas que deves receber de todo mundo que também te ama e que está distante de você.
Oi. Te amo. Me preocupo. Você está bem? Mande notícias.
Você respondeu dizendo que teve uma noite difícil, mas que o sol brilhou na manhã seguinte. Acho que você está cansada de falar sobre a guerra. E sobre mim, te falo assim:
Tenho escrito todos os dias.
Mas ontem dei uma pausa. Este desafio de escrever tem feito o meu cérebro elaborar pensamentos de forma obsessiva em forma de crônicas hipotéticas. Em resumo, meu cérebro tem “falado” comigo como uma matraca, e eu devo admitir que cansei um pouco de mim mesma. Decidi parar por um dia e não pensar em termos de palavras. Decidi deixar as imagens e sons da vida entrarem em mim sem qualquer tipo de elaboração. O silêncio me trouxe alívio.
Além de tudo, pude aproveitar um belo dia de primavera. Deixei o sol bater na minha pele e senti meu rosto esquentar. Fazia tempo que não fazia isso. O inverno foi frio e de pouca luz. Pude caminhar sem pensar em assuntos de crônicas, sabendo que depois teria um prato cheio pra escrever, caso quisesse acessar minhas experiências. E cá estou, novamente, elaborando.
Acordei recebendo beijos e café. Daí fui comprar as encomendas de muambas pra levar pro Brasil. Na rua, o sol, as flores, pessoas lendo livros deitadas na grama. Na biblioteca, uma retrospectiva de James Baldwin. No museu, uma coleção particular de joias e artefatos arqueológicos. Na volta, pizza e séries. E ioga e cerveja. Um domingo propriamente sensorial.
Você ainda pensa em seus projetos de cinema? Espero que sim. Estou tentando muito não falar sobre a guerra. Espero que seu filme seja sobre outra coisa. Sobre o amor, talvez.
Hoje voltei a escrever, mas não tinha assunto. Pensei em falar sobre casamento em resposta a uma comediante brasileira que falou sobre as pessoas casarem meramente pra seguirem convenções sociais, e achei aquilo uma besteira. Mas lembrei que os alarmes de mísseis estavam soando ontem a noite sobre a sua cabeça e eu queria muito te escrever sobre algo que nos aproximasse.
O que tem habitado a sua cabeça? Duvido que pense sobre monogamia x não monogamia. Não acho que seja relevante pra você a mais nova marca copos térmicos, obsessão entre jovens do ocidente. Ou formas de investir o seu dinheiro pra um dia ter uma aposentadoria.
Porque você não ficou na Europa? Por que voltou pra casa? Talvez Casa seja isso, algum lugar pra onde sempre queremos voltar, de um jeito ou de outro, não importa a circunstância. Talvez a pior circunstância te leve a buscar a Casa, por mais paradoxal que seja este movimento, por que Casa nos acalma, casa é como colo de mãe. Mas talvez não seja nada disso.
Tem razão. Não é um bom momento pra eu te visitar. Espero que essa guerra termine logo. Pra gente poder fazer nossa viagem aquela praia mística com geral. Aquela onde a comida e a estadia são baratas e vamos poder fumar um olhando o pôr do sol. Mas talvez não devesse falar do futuro.
Eu entendo se você não quer me responder. Eu pareço uma idiota falando de cerveja e museus e séries e pizzas. Mas ainda temos coisas em comum, não temos? O passado não conta, e o futuro não existe.
Então presentemente te desejo exatamente o seguinte: que tenhas alguém pra beijar e que te faça esquecer de pensar.
(Pensamentos são inúteis. A Mente é inútil. Nisso somos iguais. O que temos é esse sol, esta pele, esses lábios. Esta amizade e esta cerveja. Esta música. Este vento)
Alguém que te beije e te queira viva, viva, viva. E rindo. Rindo muito. Rindo e gozando através da guerra. Alguém ou alguéns que sejam tua casa, casa sem terra, casa de terra do coração. Alguém com quem possa dividir o alívio do silêncio em paz. Mesmo que a paz não exista pra você - nem pra mim, nem pra ninguém, em nenhum lugar.

Comentários