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O mundo aos meus pés (no caso, meus dedos)

  • Foto do escritor: Ana Hilgert
    Ana Hilgert
  • 9 de abr. de 2024
  • 5 min de leitura

Descrição da imagem: um screenshot de uma seção onde separo os reels do Instagram por categorias de interesse. No total, estou perto de 120 - parei de contar faz tempo.



Não me refiro ao unanismo - e quem não sabe o significado vai ter que dar um google e praqueles que sabem ou venham a descobrir já peço desculpas adiantadas pela menção sem vergonha. Me refiro logicamente a internet a qual tenho acesso pelo portal “generosamente” habilitado pelos desenvolvedores da Apple e da Meta.


É natural sinta a decadência das minhas faculdades humanas mais banais como a força de vontade para desenvolver currículos notáveis e ir a busca de um emprego comum quando tenho nos meus pequenos e insignificantes dedos o acesso a curiosidades muito naturais para mim como especulações sobre a localização da cidade misteriosa de Atlantis, a obra completa de Hegel e o processo poético-musical da Taylor Swift (bem como a lista de razões pelas quais eu deveria considerá-la uma gênia porta-voz da minha geração).


Volta e meia me pergunto se deveria começar um curso de stand-up na plataforma de educação aberta da Cambridge University ou se deveria dedicar meu tempo a práticas saudáveis de como educar um cão a partir de uma comunicação mediúnica. Mas não permito que tal questionamento me faça perder segundos significativos da minha existência: elejo por fim algo muito mais útil para minha sobrevivência que consiste na pesquisa de maneiras práticas de regenerar doenças a partir da adoção de práticas meditativas. Mesmo assim, a pulga atrás da orelha permanece: será que deveria na verdade me dedicar a terminar as obras completas de Shakespeare através de audiobooks enquanto faço a limpeza profunda dos cantos esquecidos do meu apartamento?


Sim. Qualquer opção que inclua a possibilidade de “multi-task” com a faxina é A melhor. Assim, definitivamente poderei falar no fim do dia que fiz algo de útil. A faxina é incontestável - a faxina permanece sendo o assunto primordial de qualquer existência. Eu poderia sentar na frente de qualquer ser humano e iniciar uma entrevista com um assunto único - faxina - e traçar um perfil de personalidade digno de ser vazado a um preço razoável aos programadores das redes sociais para um design impecável de anúncios direcionados aos usuários.


Quando percebo que minha mente divaga e que provavelmente não serei aquela que criará um método revolucionário de “user-experience”, percebo que ainda estou no sofá. Não fiz faxina nem comecei uma startup de marketing digital. Por onde começar? Pela busca de empregos no “Classificados” digital. O algoritmo seleciona muito bem aqueles que melhor se encaixam no meu perfil: especialista/assistente de comunicação. Como Washington DC é uma cidade tomada por práticas em torno da política, naturalmente estas vagas seriam para escritórios de representantes do Senado. Não acho que o presidente dos EUA anuncie vagas de emprego em aplicativos. Mas quem sabe se eu for por este caminho, um dia eu chego na Casa Branca. É o estímulo que meu eu “delusional” buscava: vou fazer uma diferença no mundo. Vou trabalhar para o presidente dos Estados Unidos. Fuedase, um dia Eu serei presidente! Mas primeiro preciso convencer de que seria uma ótima assistente de comunicação. E minha carta de apresentação começaria assim:


Caro Senador dos Estados Unidos da América. Venho através desta apresentar os meus serviços como comunicadora.


E continuaria de uma forma absolutamente tediosa e definitivamente, mentirosa. Para recompensar aqueles que me acompanharam até aqui, explanarei o que eu falaria se pudesse falar a verdade. Que seria mais ou menos assim:


Caro Senador - um abraço de uma americana do sul dos trópicos! Está é uma carta genérica que abrange todas as vagas de emprego que vi no Senado americano, pois o perfil de todos vocês senadores é muito semelhante, independentemente do partido (para a minha sorte!). Estarei satisfeita em aceitar esta oferta de emprego com uma compensação 2x maior para conseguir comprar cabeças de alface no valor atual do mercado de 7 dólares, bem como um aspirador de última geração (como a tecnologia americana sabe fazer tão bem!) e que permite que eu limpe a minha casa num tempo total de 2 horas em vez de 5. Uma segunda e não mais importante condição é a de que eu tenha acesso aos arquivos confidenciais da Cia, principalmente aqueles relacionados a área 51. Preciso urgentemente saber se Roswell foi real e preciso muito mesmo ler todo o material disponível acerca de experimentos de controle da mente, levitação e comunicação através de ondas vibracionais a grandes distâncias. Quando possível, gostaria de fazer uma visita na sede da NASA e dar uma espiada no telescópio James Webb para estudar o sistema organizacional de civilizações alienígenas avançadas. Acredito que todo este conhecimento deveria ser passado a mim - que sou uma pessoa razoável e teria muito o que fazer com ele.


Por exemplo - por exemplo - entregar nas mãos de cientistas que encontrassem uma forma da gente não morrer. Pra eu poder terminar de ler a enciclopédia Barsa que comecei aos 7 anos. Eu lembro quando minha mãe comprou a Barsa inteirinha pra nós - ela teve tanto orgulho de colocar o resumão do conhecimento humano nas nossas prateleiras.


E quando terminasse de ler todos os tomos de todos livros de teologia, filosofia, matemática, biologia, geografia, você entendeu - haveria mais a ler pois no meio disso teriam escrito mais livros. Mas eu leria tudo. Eu leria tudo enquanto tirava a poeira da minha casa minuciosamente - e teria prazer de fazer isso! Por que o tempo não terminaria nunca. E eu poderia também conhecer minuciosamente os cantos da minha alma e da alma dos outros.


Começaria pela minha mãe, pelo meu pai, pelo meu irmão, pelo meu marido, pelo meu melhor amigo, depois meus parentes próximos e terminaria perguntando praquela moça de Swatini seus procedimentos favoritos de limpeza: você também varre a casa antes de tirar a poeira e depois dá aquela segunda varrida pra deixar o chão impecável? E por fim, perguntaria coisas como quem é Deus pra ela e se ela tem saudade e o que pra ela é o amor. E uma receita de sopa.


Interrompo a carta imediatamente. Prefiro seguir assim. Pois quem não morre não tem fome, não tem saudade, não tem sequer curiosidade, não tem sequer sopa.


Ademais, quem é eterno não precisa mover um dedo. O que eu faria com todo o tempo do mundo se não tivesse a pressa de lavar a louça antes dos preparativos pro jantar? Provavelmente permaneceria inerte, com o mundo aos meus pés, sabendo que poderia acessá-lo a qualquer momento. A “pressa e a fome de viver”. Amar com toda força antes de perder. Escolher ao que me dedicar, pois não posso ter tudo e o que tenho e o luto do que não tenho me fazem ser única: Eu!


Misturando “Belchior com filmes de terror britânico”, bebendo do conhecimento com o tempo que tenho, com a força dos meus dedos, jogada no sofá, depois da faxina, e tentando, ao máximo, evitar o unanismo.


Pois então. Se topar, começo na segunda. Talvez chegue atrasada. Antes de me dedicar aos assuntos primordiais do estado preciso encontrar uma outra solução para o vazamento da pia - o buraco só aumenta e o balde coletor não tá dando mais conta. Aliás o senhor teria uma dica? Hehe, imagino que não.


Um abraçasso! Atenciosamente, Ana.


 
 
 

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