Jesus era um cara legal
- Ana Hilgert
- 13 de abr. de 2024
- 4 min de leitura
Descrição da imagem: um palhacinho Pierrot sentado, com a cabeça apoiada nas mãos. Seu rosto está pintado de branco e ele possui uma lágrima pintada abaixo do olho. Pierrot é um palhaço triste conhecido por ser ingênuo e por sempre voltar a confiar, apesar de tudo.
Eu lembro quando era criança e meu coração estava aberto para o mundo. Aquela vontade de receber tudo. Mas depois de adulta, comecei a carregar um peso no peito.
Uma vez quando tinha 2 anos eu dançava em torno da lareira e estava tão eufórica de alegria que caí e bati minha cabeça numa quina. O susto daquele corte ríspido da realidade que navalhou minha alegria e me inquietou como uma questão existencial que nunca me abandonou.
A felicidade tem fim. Será que ao ser feliz sempre seria recompensada com uma queda?
Parei de acreditar em Deus quando descobri a morte, anos depois. Nunca fez sentido na minha cabeça um criador ser responsável por tamanha falha na sua própria criatura. A morte é uma burrice. A morte é inaceitável. Cafona. Af. Medíocre. Por que não podemos viver sendo infinitos? Por que não seguimos sendo - Deus? Porque ele fica lá bonzão no tronão e a gente aqui lascado fudido lutando?
Deus é aquela bully da escola que chama a gente de baranga por que nossas roupas não são daquela marca “Lua” (na minha época no Rio Grande do Sul era Esta a marca que separava as deusas das mortais). Aquela mina treteira que se vinga de todas e taca fogo em quem não obedece. Todas amam Deus porque a temem. Ela é poderosa. Tão poderosa que cega. Deus é a Regina George.
Mas Jesus, não.
Jesus é um cara legal. Todos amam Jesus porque não são obrigados a amar Jesus. Não tem como não amar Jesus. Por que quem ama Jesus é livre pra amar - e deixar de amar - e voltar a amar - e sempre será amado de volta. Jesus foi amado por todos - porque ele amava a todos. Todos. Todos.
Jesus chegou na escola de uma cidade distante. Mas seu brilho cativou a todos imediatamente.
Jesus é aquele cara de inteligência extraordinária com uma humildade ainda maior que os seus dons. Ele anda com os populares, com os nerds, com as góticas, com as gays. Jesus é o carisma em pessoa. Ele senta pra falar de amar de forma simples. E todos escutam por livre e espontânea vontade - por que é genial! Jesus é eloquente, bondoso, desapegado, se enfia no meio do mato do nada pra meditar e banca a bebida do casamento pra geral. Jesus é fantástico. Nós amamos ele tanto que esquecemos do fato dele ser um nepobaby. Pelo contrário, ele sabe o que fazer com o poder que lhe foi dado pelo seu pai, Regina George.
Ele diz: a partir de agora, fazemos uma Nova aliança. Fazemos do meu jeito, viu? Uma Nova e Eterna Aliança. Uau. Deus diz: o que, e a galera diz, será? Mas Deus deixa?
Deixa.
Eu vim pra aperfeiçoar a obra.
Ah! Deus não é bobo. Até gosto mais dele agora. Até volto a acreditar.
E daí Jesus diz. Tá bem, agora eu vou morrer. Pra que, Meu Deus?
Pra mostrar que você não tem que ter medo.
De morrer
Não, de viver.
What?!?!?!
O luto que carregas não é tristeza. O peso no teu peito não é dor. É a fé pedindo refinamento. A dúvida e o medo são Deus pedindo pra ser encontrado nas brechas, nas rachaduras, Apesar de. A alegria reside em encontrar Deus em tudo, Apesar de.
Apesar da tristeza?
A tristeza não existe. É só uma suspensão da fé. É tipo quando a página da web da carregando. A tristeza é o momento que antecede ao refresh. Até que nasça uma nova ideia de Deus.
Até quando?
Até o infinito.
Tchau.
E nós?
Aperta o refresh.
E hoje, sei que Deus estava comigo quando bati a cabeça na quina. Por que enquanto minha cabeça sangrava, eu olhava pra cima no carro - meu pai dirigindo, minha cabeça no colo da minha mãe. Deus está no cuidado.
E em todos os momentos que chorei, Deus estava comigo, pra que eu aprendesse a buscar quem de mim cuidasse pra aliviar sempre meu coração.
Deus está na paciência com que eu tento de novo e de novo e de novo furar a estagnação do medo e voltar a ser livre. Não há nada mais parecido com a morte que a felicidade absoluta, escutei num reels no Instagram.
E Deus nos criou pra se divertir. Ele fez um Duo “good cop, bad cop” com Jesus porque é um mostre do roteiro. Os humanos e seus dramas. Os humanos e seus plot. E o twist, meus caros, é que não existe vida sem morte assim como não existe Deus sem a dúvida, assim como não existe luz sem a sombra.
Não existe risada sem comédia, não existe comédia sem tragédia, disse eu, me olhando hoje pra mim mesma com 2 anos, batendo a cabeça na quina da lareira, como um Chaplin, como um trapalhão, como um Pierrot.



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