Eclipse: ele voltou!
- Ana Hilgert
- 8 de abr. de 2024
- 4 min de leitura
Primavera em Washington DC.
Meio que contra minha vontade já tenho um assunto pra hoje. Surpresa. É o eclipse.
Tinha prometido pra mim mesma que ia assistir num lugar específico - o Museu Aeroespacial de DC. Da instituição Smithsonian, que administra uma série de museus com entrada gratuita por aqui. O museu de história natural, por exemplo, tem um display arqueológico e de ossadas de animais. O famoso mamute em tamanho natural está lá. No museu aeroespacial obviamente o display é de aeronaves e foguetes espaciais. Também mísseis do exército americano e aviões de caça. No caminho, uma propaganda da galeria Nacional de artes divulgava uma exposição da Laurie Anderson, artista adorada minha e de outros doidos - inclusive do público TikTok, que viralizou uma canção de sua autoria dos anos 80 - Superman. Pensei comigo mesma se este seria um ótimo argumento para desbancar queridos que ainda veem a arte (e até mesmo a ciência) com maus olhos, dizendo ser uma atividade secundária e até mesmo inútil. Pois saibam que a arte aqui possui o mesmo prestígio que a ciência, eu diria! Ocupa prédios de prestígio e não apenas para legitimar o legado cultural de um país - mas para permitir que o humano voe mais alto. Todos os cientistas nerds - que hoje dominam o mundo apesar da tentativa de burrificação dos bullies normaisivos- devem ao menos ter uma obsessão por Azimov.
Pois bem. A obsessão geral pelo eclipse tomou a cidade de DC hoje. Acordei com uma disposição incrível para perseguir o sol e os óculos ideais para a observação do fenômeno. Se há 30 anos atrás no Brasil usávamos lâminas de raio x para olhar para o sol sem queimar nossas córneas, a típica neurose por aqui enfatizou a importância de verificarmos a procedência de óculos “de eclipse”. Claro, cuidados como este são importantes. Observar o eclipse com olhos desnudos pode provocar cegueira pois a sombra da lua nos faz sentir seus raios de forma mais amena e pensamos estar seguros enquanto os raios fritam a nossa visão. Mas dai até disseminar um medo geral de que os óculos comprados na Amazon poderiam ser adulterados… bem. Imagino que a neurose seja minha e não dos outros. A neurose da neurose. A neurótica que usa os óculos da neurose. Depois explico o porque.
Fui na loja aqui do lado voltada para artefatos geek chamada Because Science e os óculos estavam esgotados. Me alarmei. Os óculos de verdade estavam esgotados em toda a cidade. Fui para o museu. Naturalmente e como sempre, fui salva por cambistas. Comprei um par. Peguei o trem e fui para o segundo museu Aeroespacial onde tinha um gramado e onde poderia entrar depois que tudo se acabasse.
Pessoas observavam calmas o sol escurecendo. Muitas pessoas. Grupos de pessoas, casais, entes solitários que como eu não estavam sós. Pareciam namorar o sol. Assistiam a um filme de romance entre os dois astros em torno dos quais todo inconsciente da humanidade se construiu. O sol e a lua se fundindo como amantes. Eu observava a tudo como um filme em que pessoas finalmente se acomodavam num estado contemplativo e de expectativa muito pouco ansiosa: o sol vai voltar a brilhar? E se não voltar? Nada a fazer. A grama no entanto está úmida. As crianças estão rindo alto. Estamos todos aqui como nossos ancestrais: a mercê, sabendo e não sabendo se o sol terá coragem e até mesmo disposição para novamente cobrir nossas existências de luz. A temperatura caiu. Era como se as luzes tivessem apagando. Era como se a peça tivesse terminado. Era como se só pudéssemos aguardar pelos créditos finais. Apesar da ciência, apesar do que sabemos, e do que duvidamos saber, voltamos todos a ser humanos unidos com outros humanos há 10 mil anos atrás. Eu estava lá, com o sol apagando e desejando alguém tivesse comigo lá, alguém a quem pudesse fazer uma piada infame pra desafogar a poesia que se formava dentro de mim - a poesia disso, disso tudo, a poesia que chamaria o sol de volta sobre nossas cabeças, a poesia da nostalgia, a poesia do fim. Estava sozinha mas não estava sozinha. Olhava ao meu redor e todos no seu silêncio eram artistas. Poetas do fim. Cada um com sua alquimia particular, fazendo feitiços internos para o sol voltar. Xamãs que chamavam o sol de volta dizendo - merecemos. Seremos melhores seremos - diferentes.
Morremos juntos numa tarde sem nuvens ao lado de artefatos arqueológicos do século XX: aviões de caça com dentes de tubarão, mísseis, suásticas, motores de propulsão, looks cyberphunk de astronautas, e um foguete espacial do tamanho da mansão do Bill Gates. Morremos pequenos como humanos do neolítico, pequenos como sempre seremos, mesmo conquistando o ar, os espaços e o espaço.
Neste momento, não olhei pro sol. Olhei para o silêncio das pessoas e a beleza do seu espanto. Consegui esquecer do meu próprio espanto, até sentir que a temperatura aumentava. Ele voltou! Soltei uma gargalhada. Ele voltou.
Enquanto esperava o ônibus que me levaria ao aeroporto para receber meu marido que voltava de avião onde havia sido contaminado com uma intoxicação alimentar, olhei novamente pra ver se meus óculos tinham certificação do ISO 123(x..). Por um breve instante pensei que na minha empolgação pelo sol havia sido descuidada e ficaria cega definitivamente. Talvez minha neurose crie eclipses apenas para ver a razão voltando como o sol - triunfante e preguiçosa. Assim encontro maneiras de renascer mesmo quando tudo parece igual, mesmo quando pareço esquecer do fim do em meio a constância (aparente) do cotidiano.
Ele voltou. Ele literalmente voltou. Não o sol. O sol não havia ido a lugar nenhum. Me refiro ao meu marido. Voltou com sequelas da executiva da Qatar. Não consegui nem tomar o espumante, disse ele. Era natural querer aproveitar cada gole do luxo. Apagou no sofá, mas antes disse que nem ligava pra essa coisa de eclipse. Queria que você estivesse lá comigo, pensei.



















Obrigada por trazer o Eclipse para nós. Aqui ele não foi visível, ver através do teu olhar simplesmente me levou á minha infância quando vimos um eclipse com lâminas de raios x🤗🤗🤗