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Depois de um dia no museu da Cientologia

  • Foto do escritor: Ana Hilgert
    Ana Hilgert
  • 8 de abr. de 2024
  • 7 min de leitura



Primavera em Washington DC.


Ando meio sem disposição pra enfrentar as tarefas diárias de trabalho. Tenho visto no Instagram influencers que me ajudam a pensar que tudo bem este estado geral de cansaço. A procrastinação é geral e está nas estrelas. O eclipse se aproxima. Tenho tido no entanto uma atividade intensa astralmente falando. Fui literalmente ejetada de minha cama a diversas dimensões do universo. Graças ao Instagram novamente pensei ser tudo normal. Mais ainda, pude corroborar as minhas ilusões de fazer parte de um estrato especial da humanidade. Diria até mesmo estrelato especial da humanidade se tivesse forças para justificar o trocadilho infame. Fuedase. Acompanhando teóricos “starseed” nos reels do Instagram e com um preguiçoso exercício de fé me convenci fazer parte de uma população de alienígenas híbridos que habitam o planeta terra. Me fez bem pensar que em algum lugar da existência eu poderia ser considerada atípica, e que meu destino se distanciaria daquele pela comunidade humana, seja qual for este destino, seja ele divino, ou auto imposto. 


É legal se sentir especial. Deve ser essa a origem de toda a criação humana: não apenas buscar um sentido, mas uma importância para a própria vida. Este sim é um aspecto muito humano - que me habita, talvez devido a minha natureza híbrida, o de tentar deixar marcas da nossa passagem pela vida - fazer uma diferença, construir um legado, ser amado por outros seres humanos e não apenas um lixo descartável, substituível, sem nenhum significado. No entanto, o eclipse tem eclipsado minhas tentativas de plantar as ideias que tanto ruminam em minha cabeça. Chego a pensar que as próprias ideias que cozinho se auto eliminam, ou melhor, se canibalizam, como bactérias que se alimentam de outras bactérias ou moléculas que se incorporam e, ao se incorporar, se envenenam e se destroem mutuamente. Resolvi aproveitar o sol. É primavera. Os meses de inverno se passaram e eu sinto vontade de perseguir o sol, empreitar caminhadas e beber de tarde.  Resolvi tratar a cidade como um local de visitação - afinal, cheguei aqui há menos de 4 meses, e isso justifica facilmente tanto o fato de me sentir uma turista quanto o fato de ainda não estar empregada. Como é bom possuir desculpas. 


O museu mais próximo de mim era a primeira sede da igreja de cientologia fundada por Ron Hubbard. Para simplificar a história direi simplesmente que fui. Fui por que fui. Gosto de museus e além de tudo sinto que essa cidade é composta por segredos que devo desvendar. Segredos guardados por sociedades secretas. As portas aqui possuem insígnias. As casas parece que pararam no tempo. A qualquer momento penso que um fantasma pode aparecer numa dessas janelas e me dar um alô, abanando. As pessoas também são misteriosas. Pouco respondem a sorrisos - parecem desconfiadas. Esta afinal é a capital dos Estados Unidos e sede da Casa Branca e do senado. Esta cidade deve estar cheia de espiões e jornalistas caçando notícias e lobistas e pessoas que mentem em nome de um jogo político. Deve ser isto. Entrei lá naquela casa antiga construída no início do século XX. Fui levada por um garoto de 20 e poucos anos com um topete duvidoso e tatuagem de árvores a conhecer a vida deste homem religioso. 


A narrativa era impressionante. Filho de marinheiro, viajou o mundo inteiro e se tornou piloto de avião, engenheiro, físico nuclear, e membro de uma sociedade de exploradores do mundo com nomes notáveis dos quais não me lembro agora. Se Hubbard foi capaz de se tornar um mestre em inúmeras funções que muitas pessoas passam a vida inteira as vezes sem sucesso dominar, eu não consigo nem lembrar um detalhe como um nome importante. Hubbard incorporava os valores norte americanos como ninguém - talvez como Lincoln e Benjamin Franklin, ídolos incontestáveis da região. E em meio a tudo isso, fundou uma igreja que misturava psicanálise com um estudo de alma baseado nos seus estudos pessoais em diversos assuntos relacionados a humanidade, como vida após a morte, evolução das espécies, huckleberry fin, oratória, entre outras coisas. Me chamou a atenção o fato de ele ter sustentado financeiramente tamanha gama de atividades através da sua produção enquanto escritor de ficção. Logo eu que batalho para escrever uma hora por dia algumas folhas que acredito não terem muita utilidade, me deparo com um homem que fez tudo isso com sucesso, colhendo ao mesmo tempo um total de 3000 prêmios, sendo agraciado inclusive com 100 prêmios anuais mesmo após a sua morte. Quando cheguei em casa, senti sono. Fechei os olhos. Havia escutado por 1 hora e meia um garoto falar efusivamente sobre o seu mentor. E eu nem havia escutado nada sobre uma crença comum de que a cientologia baseava sua cosmologia na existência de extraterrestres reptilianos que teriam fundado a terra com algum objetivo do qual me esqueci, prendendo humanos num ciclo cármico infinito como escravos. 


O garoto, que nem sabia o significado da palavra cosmologia, se preocupava bastante em estar falando muitas palavras difíceis pra mim, que não falo inglês como nativa. Pensei comigo mesma que a minha tentativa de exacerbar meu sotaque brasileiro estava dando frutos. 

Se antigamente, quando vinha a este país, tentava imprimir um sotaque americano, tornando o meu português imperceptível, hoje faço questão de me distanciar ao máximo de qualquer trejeito forçado norte-americano. Acho cool ser estrangeira, apesar de saber que existe uma grande resistência a estrangeiros por aqui. Principalmente por que, nesta tentativa, acabo por aparentar como alguém proveniente dos Bálcãs - búlgara, ou até mesmo russa. Penso que nisso tenho alguma vantagem - os russos geram desconfiança, mas também medo. Desejo ainda ter uma oportunidade para fazer sutilmente algum americano crer que sou de fato herdeira da máfia russa de Nova York. Hoje quase foi a minha vez. 


Após ter ficado presa no elevador de manhã, coloquei um papel na entrada do prédio alertando os vizinhos do mal funcionamento do mecanismo. Ainda fui generosa expondo o meio que utilizei para sair fora daquela situação que incluía apertar um “switch” que indicava as ações “parar” e “seguir”. Pra que. Fui interpelada (nas escadas) por minha vizinha “amigável” como toda americana branca sabe ser. Dando o melhor display possível de agressividade passiva, ela se botou a falar sobre como “eu não deveria saber disso” mas que todo elevador nos Estados Unidos tinha um telefone. E que da próxima vez que eu ficasse presa deveria ligar para os bombeiros. Claro, pensei eu. Por que resolver a situação de forma rápida se posso acionar o corpo de bombeiros por uma razão inútil? Eles adoram, aliás, estacionar aqui na frente de casa por nenhum motivo - 4 carros de uma vez e nenhum sinal de fumaça. Agora sei que devem ser senhoras presas no elevador - e que se recusam a acionar o switch. Antes de ir ela disse que “não sabia se eu sabia” que aqui as pessoas não subiam para levar as entregas na Amazon na porta dos moradores e que eu devia coletar minhas entregas no lobby. Eu falei claro, eu faço isso, e ela disse que haviam compras minhas paradas lá há alguns dias. Eu falei pra ela que não - mas que uma encomenda minha havia sumido. Ela ignorou minha última frase e disse que definitivamente havia visto compras minhas lá embaixo. Eu não disse mas pensei. Tenho certeza que não. Estou buscando uma entrega que foi notificada ter sido entregue nas mãos de algum morador - mas que aparentemente sumiu, inclusive, ao fazer isso, percebi que o vizinho do 702 estava com 3 encomendas acumuladas há dois dias. Mas não falei nada. 


Saí para o mercado. Enquanto estava lá, pensei: o bilhete que coloquei no elevador é prova incontroversa de que agi de forma não convencional talvez até mesmo ilegal. E ri de mim mesma. Estou me tornando uma neurótica. 


No entanto não consegui parar de pensar em como reagiria se interpelada pelo conselho de moradores com relação ao fato de ter ligado o tal do “switch”. Com certeza falaria a minha vizinha algo como querida você está bem? Está sendo amada e cuidada? Por que você está agindo como se sua vida fosse algo próximo do miserável e que esta pequena picuinha com a minha pessoa lhe agrada apenas por não ter nada melhor a fazer na sua vida sem sentido. Por favor se eu puder fazer alguma coisa me avisa. Você é minha querida vizinha e não quero brigar com você. Devemos viver em harmonia. E finalizaria com algo que desse a entender que meu marido era mafioso. Algo como: por favor, não diga a ninguém sobre o meu deslize. A corporação russa ficará muito insatisfeita comigo, e eles perdem rapidamente a paciência com futilidades como essa.


Se algo faz sentido nesta minha vida nos Estados Unidos é o meu aprendizado na agressão sutil. Deve ser por isso que ninguém sorri pra mim. Devem pensar que meu sorriso é um ataque - como a gentileza vil de minha querida vizinha. 


Voltei correndo pra casa e tirei o bilhetinho da porta - quem ficar preso agora terá que chamar os bombeiros. E segui na minha procrastinação justificada pelo domingo. Não vou ganhar prêmios por isso - nem descobrir o sentido da existência - não vou fundar uma igreja tampouco colecionar prêmios - mas talvez seja especial. Não por ser alienígena ou tomar a iniciativa de sair do sofá para conhecer a vida de um homem que dedicou cada segundo da sua existência a se tornar produtivo conquistando todas as áreas da existência humana com a mesma talvez digna excelência - talvez até mesmo mediocridade. Sou especial pois não sou especial nem nada. Não sou especial e sou. Pro meu marido ao menos, que riu comigo ao escutar a história e dizer que sem o privilégio que tinha aquela mulher não seria nada. Como é bom possuir validação nos braços de quem nos ama. Apesar de estarmos errados o que importa é a nossa coesão social. Não me refiro a mim. Me refiro ao cara da cientologia. Eu estou certa. Certa do meu vazio e insignificância. Se não tivesse, fundaria uma igreja.



 
 
 

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1 comentário


luanadellacrist
08 de abr. de 2024

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